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ATENDIMENTO PSICOLÓGICO EM UTI

TATIANE NICOLAU MENDES
(Fevereiro/2007)

Observa-se que sempre que é mencionado que “o paciente vai para a UTI”, o nível de ansiedade deste e dos familiares se eleva significativamente, devido às conotações negativas que esta carrega, principalmente a de que o paciente foi para morrer ou que foi para adiar a morte. Percebe-se que até casos considerados apenas em estado de observação, como nos pós operatórios imediatos, os pacientes quando não são preparados ou comunicados previamente do “acordar em uma UTI”, poderão ter o seu quadro orgânico alterado pela condição emocional, devido aos conceitos e valores atribuídos culturalmente a esta Unidade.
Diante desse panorama, o paciente internado em UTI reage diante desse ambiente. Essas reações são individualizadas, subjetivas e dependentes de todo um histórico de vida que o paciente traz consigo. A internação em UTI representa  para o paciente um estreitamento de horizontes e  uma ruptura brusca com o meio onde vive. O paciente se vê dependente de aparelhos, máquinas e pessoas estranhas constantemente, sente-se limitado em suas atividades e privado de sua liberdade, além de vivenciar sentimentos como medo, ansiedade, angústia de morte, desamparo, solidão, depressão reativa, apatia, entre outros. Assim, diante da necessidade de internação numa UTI, o paciente agrega recursos internos e mobiliza modos de enfrentamento da situação, de modo que possa se proteger da situação que lhe é imposta.
A família também passa por um momento de impacto emocional ao saber que um ente querido precisa dos cuidados de uma UTI, pois é uma notícia que envolve algo com que não se está preparado e que foge de suas experiências existenciais corriqueiras. Sente-se impotente frente a internação na UTI do seu familiar pois lhe é retirado o seu papel de cuidador, que fazia parte do seu cotidiano.  Deve-se ressaltar que os familiares também vivenciam sentimentos semelhantes aos dos pacientes internados, uma vez que eles também se distanciam de seu ente querido, enfrentam um ambiente desconhecido e tenso no horário de visitas e experimentam sentimentos de insegurança, medo, preocupação diante do quadro clínico do paciente. Em contrapartida, também representam uma potente força afetiva para o paciente e grande fonte de motivação. Durante o horário de visitas, é a família que traz notícias do mundo do paciente, que demonstra sentimentos de ligação importantes com ele, que o estimula a reagir diante da doença e tratamento, que acende a esperança de melhoras. Daí a importância do horário de visitas na UTI, porque a família representa vínculos que a equipe de saúde não tem, por mais que se esforce.
Diante dessas intempéries emocionais vivenciadas tanto pelo paciente como pela família, a equipe de saúde desempenha um papel fundamental, uma vez que é ela quem cuida do paciente e atualiza as notícias do quadro clínico do mesmo para a família, o que pode minimizar as sensações e sentimentos citados. Por outro lado, a equipe vivencia diariamente situações de morte iminente, o que os leva a refletir e a ponderar questões sobre vida / morte. Questionamentos estes muitas vezes permeado pelas sensações de impotência / onipotência diante da vida do paciente. Além disso, estudos afirmam que os profissionais de saúde envolvidos com o trabalho em UTI também são confrontados, diariamente, com uma gama de sentimentos e sensações nocivos, tais como: manejo diário com a intimidade emocional e corporal do paciente, convivência com limitações técnicas, pessoais e materiais, alto grau de expectativa e cobranças dos pacientes e familiares, solicitação intermitente de decisões rápidas e precisas, intercorrências constantes, mudanças repentinas de estado clínico do paciente, clima de constante apreensão e tensão, intensa responsabilidade por cada tarefa executada, entre outros.
Diante dessa realidade, a portaria nº645 do Ministério da Saúde estabeleceu que toda UTI deve ter equipamentos e recursos humanos especializados. Dentre esses, compreende-se os serviços prestados pelo Psicólogo da Saúde e Hospitalar, podendo ser denominado também Psicólogo Intensivista. O Conselho Federal de Psicologia publicou no "Jornal Federal" ano XIX, nº 84 (Maio de 2006), a importância da atuação dos psicólogos na UTI, tendo em vista as diversas reações psicológicas dos pacientes e familiares que lidam com o sofrimento, a dor e a morte iminente. Ainda neste artigo são descritas as principais atribuições do Psicólogo Intensivista: atuar junto à equipe interdisciplinar, acompanhando processos de acolhimento e reflexão sobre a tarefa assistencial dentro do projeto e especificidade de atuação; realizar observação, avaliação e acompanhamento dos pacientes e familiares dentro de uma rotina de atendimento; registrar o histórico, a evolução e as intervenções com o enfermo em prontuário individual; acolher, preparar e acompanhar os familiares para que participem do processo do cuidados do enfermo, junto à equipe; coordenar grupos com familiares; acompanhar as informações médicas/equipes buscando facilitar o processo de comunicação/compreensão desde a rotina de admissão até o encaminhamento para atendimento em enfermaria ou domiciliar, pós-UTI; atuar junto à equipe no sentido de promover discussões, reflexões e ações sobre o cuidado/humanização; aplicar questionários periódicos visando avaliar cuidados/humanização da assistência; viabilizar campo para estágio, contribuindo com a formação de novos profissionais; desenvolver estudos e pesquisas partindo de avaliação de protocolos assistenciais.
Percebe-se assim que a atuação do psicólogo em uma UTI é impreterivelmente dirigida à tríade Paciente/Família/Equipe.  Na minha rotina diária, dentre as intervenções possíveis do psicólogo numa UTI, destacam-se: avaliação psicológica e exame psíquico diários dos pacientes internados, bem como o acompanhamento diário aos mesmos; leitura de prontuário; discussões de caso  e interconsultas com equipe de saúde; esclarecimento de dúvidas; fortalecimento de vínculo com o paciente e deste com equipe de saúde; favorecimento da expressão de sentimentos (mesmo em pacientes impossibilitados de comunicação); detecção e avaliação da ocorrência de alterações emocionais complicadoras ou alterações psiquiátricas; acompanhamento às famílias no horário de visitas; estímulo à equipe de saúde a perceber suas dificuldades em lidar com situações críticas e fortalecimento de vínculo entre os profissionais de saúde. Todas essas intervenções seguem objetivos específicos , que são:

  1. Com o paciente internado na UTI:
      1. Avaliar as condições emocionais frente essa situação;
      2. Escutar ativamente;
      3. Promover livre expressão de sentimentos;
      4. Realizar técnicas de relaxamento / visualização;
      5. Fornecer atendimento psicológico de apoio, estimulação e orientação.
  2. Com os familiares:
      1. Avaliar as condições emocionais frente essa situação;
      2. Escutar ativamente;
      3. Promover livre expressão de sentimentos;
      4. Preparar psicologicamente para o horário de visitas;
      5. Acompanhá-los durante o horário de visitas;
      6. Fornecer suporte emocional antes, durante e/ou após o horário de visitas;
      7. Fornecer atendimento psicológico de apoio e orientação;
      8. Preparar psicologicamente para situação de pré-óbito do paciente;
      9. Fornecer atendimento psicológico pós-óbito imediato.
  3. Com a equipe de saúde:
      1. Fornecer informações sobre a condição psicológica de pacientes e familiares;
      2. Compartilhar sentimentos advindos de situações vivenciadas na UTI;
      3. Discutir casos dos pacientes;
      4. Fazer interconsultas;
      5. Planejar trabalhos e participar de eventos científicos;
      6. Trocar materiais didáticos;
      7. Fornecer suporte emocional.

O psicólogo intensivista exerce um papel de “cuidador das emoções” do paciente, família e equipe, visto ser a UTI um ambiente extremamente tenso e mobilizador de sentimentos. Requer do profissional flexibilidade e serenidade para lidar com as mais diversas situações diante da morte e do morrer, tolerância à frustração, sensibilidade para apreender o significado daquele momento na vida tanto do paciente como da família e disponibilidade, muita disponibilidade em ajudar, principalmente nas situações mais críticas.
Percebe-se, então, que o Psicólogo Hospitalar na UTI tem por finalidade maior promover  a humanização do ambiente e das relações entre paciente/ família/equipe de saúde, bem como  minimizar o sofrimento de paciente e familiares diante da situação de doença, tratamento e internação em UTI, sempre atuando de forma integrada com os outros profissionais de saúde.

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